THEME_ENGLISH THEME_PORTUGUES
Entrar    
 + 0
Downloads Novos
A Análise e o Analista
  Enviado em Sun 12 Oct 2008 por SoniaPined (1457 leituras)
A Análise e o Analista

Sonia Pineda Vicente -psicanalista, odontopediatra
Telma A. L. Carlos - psicanalista, pedagoga

Desde a época de Freud, a maioria dos pacientes chega ao analista, depois de terem passado por muitos consultórios médicos, sem terem encontrado a “cura” de seus males; a indisposição física, orgânica, o “nervosismo”, a insatisfação, o desprazer de viver, a rotina estressante, suas necessidades e angústias...
Uma grande parte dos pacientes já revela na anamnese que leram Freud, que buscaram através de algumas leituras, compreenderem o que se passava com eles mesmos.
Segundo Carvalho (2001)7 a Psicanálise visa extinguir as respostas automáticas: agressivas (hostis) ou libidinais (sedutoras) da instintualidade automática (inconscientes) face a um estímulo que encontra nos conteúdos afetivos a base propícia para o desencadeamento de idéias, pensamentos e percepções determinantes de um processo defensivo e de um comportamento.

Segundo Carvalho7, “toda atitude é uma defesa”. Este não é um processo simples, Freud diferenciou dois processos que caracterizam as modalidades de pensamento que denominou de processo primário e secundário.
Faria (1992)8, em seu texto “Comunicação em nível psicótico” assim se expressa: “Em uma criança pequena, as informações que recebe do mundo externo produzem em sua mente a noção inicial de um universo caótico e confuso, porque na sua mente serão trabalhadas pela maneira de ser do pensamento infantil. que usa o método que Freud denominou processo secundário, mais evoluído, e que será instalado com a aquisição da linguagem”.

“A diferença entre esses dois tipos de pensamento é enorme. No simbolismo do tipo processo primário, as representações mentais são irônicas, ou seja, por imagens predominantemente visuais; mas também acústicas, tácteis, odoríferas e gustativas, porém muito freqüentemente mistas. No simbolismo do tipo processo secundário, as coisas (objetos, fatos, acontecimentos, sensações) serão representadas por uma designação atribuída, artificial, que variará de povo para povo, de língua para língua. Com a aquisição da linguagem, os símbolos icônicos, serão permeados pelo simbolismo verbal, receberão designações, nomes...
Em análises com pacientes apresentando perturbações de tipo predominantemente neurótico, ambos, analisando e analista estarão no mesmo universo relacional pois as comunicações entre eles serão, em sua maioria, provenientes do aspecto mental que foi denominado por Bion (1957)2 parte “neurótica” da personalidade. ... como veremos, em qualquer pessoa poderão aparecer aspectos comunicativos de outros setores de sua personalidade conhecidas como parte “primitiva” e parte psicótica da mente.

A percepção da persistência de uma parte primitiva da personalidade em pessoas adultas já aparecia em Freud (1911)10. [...] Onde ele escreveu: “Nos sonhos e nas neuroses, deparamo-nos mais uma vez com a criança e as peculiaridades que caracterizam suas modalidades de pensamento e sua vida emocional, e deparamo-nos também com o selvagem. Posso agora acrescentar com o homem primitivo, tal como se nos revela à luz da Arqueologia e da Etnologia”. Alguns anos depois Freud (1927)9 acrescenta:”no domínio da mente [...] o elemento primitivo se mostra tão comumente preservado, ao lado da versão transformada que dele surgiu, que se faz desnecessário fornecer elementos como prova”.
As noções sobre a parte primitiva da mente são estudadas e conceituadas principalmente por Winnicot (1945)16 que diz ter “feito uma tentativa para formular as tendências paleológicas primitivas que são normais na primeira infância e que aparecem regressivamente nas psicoses. É ponto pacífico na literatura analítica que a parte psicótica da personalidade trabalha com elementos primitivos, porém não é unânime a opinião que exista em pessoas adultas uma parte primitiva sadia, não psicótica.”.
Melanie Klein (1946)13 escreve: “nos primeiros anos da infância manifestam-se ansiedades características da psicose que obrigam o ego a desenvolver mecanismos específicos de defesa. Nesse período são encontrados os pontos de fixação para todos os distúrbios psicóticos”. ...
De acordo com as idéias de Bion, a pressão social na aculturação da criança leva-a, por vezes, a violentos ataques ao aparelho perceptual que está construindo, sendo este, através do “splitting” e da identificação projetiva, separado em fragmentos diminutos e espargido no mundo objetal. Isso levaria à formação do que chama ele “a parte psicótica da personalidade”. No indivíduo considerado como psicótico, diz Bion (1957)2: “haveria em seu psiquismo uma parte sujeita aos mecanismos neuróticos com os quais a psicanálise nos familiarizou, e uma parte psicótica, que seria tão dominante como a parte não-psicótica da personalidade, com a qual existe em justaposição negativa, senão obscurecida”.
Portanto, descreve Bion2 na personalidade uma parte “neurótica”, uma parte “psicótica” e uma parte “não-psicótica”, para Faria, essa parte “não-psicótica” seria idêntica ao que foi denominado por alguns como “aspectos primitivos” do indivíduo, e que persistiria em todas as pessoas.
A “parte neurótica” seria a parte da personalidade modificada pela aculturação como descreve Freud (1927)9 em “O futuro de uma ilusão”. Segundo Bion (1957)2, a parte neurótica resultaria da ação da repressão sobre o pensamento primitivo. Faria prefere designá-la parte aculturada neurótica, para evidenciar que não se trata de algo patológico, doente, mas sim do preço que pagam os seres humanos para poder viver em sociedade. Seria um aspecto normal de adaptação do indivíduo às exigências de sua cultura; transformar-se-ia em neurose (doença) quando os mecanismos de defesa, essenciais ao funcionamento da mente, fossem utilizados de modo inadequado e excessivo.
Bion trata em muitos momentos da instalação que chamou “parte psicótica da personalidade” e que supõe ser devida a períodos de frustração durante a aculturação da criança. Aconteceriam, então, ataques à realidade, ao espaço, à percepção da decorrência temporal, a tudo que estava organizando o indivíduo em seu desenvolvimento. Uma conseqüência especial seria o ataque a vínculos ou ligações, fato este responsável pela dificuldade em simbolizar característica da parte psicótica. Um símbolo é uma representação mental de um objeto, um fato ou outra coisa qualquer. Para configurar um símbolo é necessário haver uma ligação entre o objeto representado e o seu símbolo. Se esse símbolo é atacado, destruído, a representação simbólica desaparece, o símbolo será confundido com o objeto no modo típico do pensar concreto psicótico.
Esse fato será, juntamente com o emprego da identificação projetiva-introjetiva, responsável pela indefinição, pela mescla entre o mundo interno e o mundo externo, característica da parte psicótica.
Para entender o porquê de o processo psicótico ser parecido com um período muito precoce do desenvolvimento infantil, Faria supõe que a destruição dos vínculos simbólicos principie por atacar aspectos mentais já mais desenvolvidos, ou seja, os vínculos simbólicos do processo secundário, no qual um símbolo dado se mostra mais específico ao elemento por ele simbolizado.
No processo primário, os símbolos não são tão específicos do elemento que simbolizam, devido ao fato desse processo ser mais fluído, menos rígido que o secundário. Matte Blanco (1975)14 explica que fluidez e inespecificacidade simbólica postulando o uso da simetria e a colocação de tudo o que é pensado em séries infinitas. Essas características do processo primário são igualmente encontradas no pensamento primitivo, nos sonhos e nas psicoses.
Cabe ressaltar que, se falarmos sobre a comunicação psicótica, teremos necessariamente que trabalhar também com os aspectos primitivos da personalidade, pois, tanto o primitivo quanto a psicótica apresentam o mesmo tipo de linguagem baseada primordialmente, embora não em sua totalidade, no tipo de pensamento que utiliza o processo primário (Freud).
Face ao exposto, Faria (1992)8 acrescenta: Em outras palavras; o universo configurado e descrito através do uso de uma parte da personalidade será distinto do configurado por outra parte.
A parte aculturada-neurótica da personalidade resulta da ação do mecanismo de repressão e usa predominantemente o processo secundário.
A psicótica configura o seu pensar e suas comunicações em um tipo lógico baseado no processo primário, não faz uso do mecanismo da repressão, conforme colocou Bion (1957)2, usando em seu lugar o mecanismo da identificação projetiva-introjetiva, o mesmo acontecendo com a parte primitiva. Existe uma diferença.
A parte primitiva é um aspecto sadio da personalidade, apenas não-adaptado ao uso em muitos aspectos do convívio social, a não ser quando ela, criativa como é, torna-se a fonte de manifestações artísticas ...
A parte psicótica é doente, resulta da destruição da matriz do pensamento por ataques de ódio à realidade, conforme escreve Bion (1957)2: “Não somente é atacado o pensamento primitivo por ligar as impressões sensoriais da realidade com a consciência, como também, graças à alta ligação psicótica com a destrutividade, o processo de dissociação (splitting) é estendido aos próprios vínculos internos dos processos de pensamento”.
O mundo alucinatório seria o real para um paciente que esteja percebendo e descrevendo o que percebe através de sua parte psicótica; algo de difícil compreensão para um analista pouco flexível, que se mantenha rigidamente considerando as coordenadas através da percepção exclusiva de sua parte aculturada-neurótica. O universo percebido e descrito por um indivíduo através de sua parte psicótica será extremamente diferente do percebido por esse tipo de analista, pois refere-se a outro cenário, outro universo de percepção, como acentuou Bion (1957)2: “não um mundo de sonhos, mas um mundo de objetos que constituem ordinariamente o mobiliário dos sonhos”.
Para entendermos as comunicações psicóticas, faz-se necessário, como aconselha Bion (1967)5: “eliminar memória, desejo e, paradoxalmente, também a compreensão”. A memória refere-se ao passado, o desejo ao futuro, a compreensão ao presente. Somente assim, desligando-se de qualquer compromisso com o que parece acontecer na sessão. poderá o analista entrar em contato com o que não parece acontecer, mas que se mantém subjacente e atuante.
Evidentemente, não é necessário que o analista se torne também psicótico para esse fim. A busca científica baseia-se no encontro de métodos mais adequados e com menos riscos para obtenção de resultados. Como os mecanismos da parte psicótica da personalidade são parecidos (...) os mecanismos utilizados pela parte primitiva, cabe ao analista utilizar esse aspecto de sua personalidade (os aspectos primitivos) para tentar entender o que faz e traz o seu paciente através de sua parte psicótica.
Encontramos em Grinberg (1975)12 o seguinte: “Freud já havia confirmado existirem níveis de funcionamento mental mais primitivos que o desejo, ou aqueles nos quais existe o princípio do prazer, níveis estes que, por falta de ligação mútua, jazem além do princípio do prazer”.
Seguindo Freud, ele os explica como estados nos quais a mente age como um aparelho de descarga de estímulos (exatamente como faz um bebê antes da primeira experiência de satisfação) ...Suponho que esse nível de funcionamento exista não somente em pacientes psicóticos, mas também em todos nós (em proporções menores) de um modo real ou potencial. É provavelmente o nível mental mais primitivo. “É também o mais oculto pelos diferentes graus de organização e constitui-se ainda no mais difícil de detectar e interpretar”.

Torna-se, portanto necessário que o analista aprenda a usar seu aspecto primitivo, escondido e esmagado pela aculturação. Seria algo como “ver com os olhos de criança”, considerar tudo que observa como novo, seguindo os preceitos de Bion, não usar pré-concepções.
O que chama a atenção quando comparamos aspectos primitivos e psicóticos e similaridade da linguagem e do tipo lógico empregados por esses dois modos de ser nos indivíduos. Ambos utilizam, juntamente com o uso da lógica convencional ou aristotélica, aspectos de um tipo lógico, chamado por Arieti (1955)1 de paleológico, correspondente ao tipo lógico, denominado por Matte Blanco (1975)14 simétrico, caracterizado pelos mecanismos próprios do processo primário. Mas não há pureza no emprego desse tipo lógico; existe mescla com a lógica comum, ou tipo assimétrico de Matte Blanco, mescla esta denominada por ele bilógica.
Uma das características do pensar paleológico é obedecer ao princípio de Von Domarus... Segundo Arieti1: “Enquanto uma pessoa normal aceita identidade somente quando baseada em sujeitos idênticos, o pensamento paleológico aceita identidade baseada em predicados idênticos...
Esse tipo de pensamento que Arieti denomina paleológico, que determina as propriedades da comunicação proveniente da parte primitiva ou da psicótica de personalidade, nada mais é que conseqüência da predominância do processo primário em sua constituição com as suas qualidades características. Assim, a condensação, o deslocamento, a ausência das qualidades de tempo e espaço, a falta de contradição e a substituição da realidade externa pela realidade psíquica explicam perfeitamente esse modo de ser do pensamento paleológico. Repetindo, são as mesmas qualidades encontradas no pensamento infantil, no pensamento esquizofrênico e no sonho, como também são as mesmas que Matte Blanco (1975)14 atribui ao modo de pensar que denomina simétrico.
O analista, tanto o que trabalha com pacientes que se comunicam através de sua parte psicótica, como o que atende crianças ou que atende adultos com sintomas neuróticos, necessita ter em mente as qualidades dessa linguagem, abertamente presente nos dois primeiros casos, e culta, subjacente, em pacientes com sintomatologia neurótica ou psicossomática, permeando os seus sonhos, seus lapsos, suas atuações, enfim todos os seus processos comunicativos.
Arieti (1955)1 refere: “O predicado selecionado para o processo de investigação é denominado ligação identificadora, sendo determinado pelos fatores emocionais envolvidos em cada situação observada”. Note-se a ênfase colocada por Arieti nos fatores emocionais, assinalando a grande impregnação afetiva presente nesse tipo de comunicação... Bion (1962)4 chama fato selecionado, o elemento que estaria presente ligando os diversos elementos de uma comunicação e que deveria ser captado e percebido pelo analista para compreensão e posterior interpretação de assuntos aparentemente desconexos de uma ou de parte de uma sessão analítica. Sobre isso, escreve Bion (1962)4: “O fato selecionado é o nome da experiência emocional; a experiência emocional da descoberta da coerência”.
Exemplificando: o analista deve observar a evidência de vários modos de ser característicos da parte psicótica, descritos por Bion (1962) como o acúmulo de elementos-beta (1) e a necessidade de sua descarga através do aparelho muscular (irriquietude), por impossibilidade de transformá-los em elementos-alfa (2) capazes de ser pensados pela deficiência de sua função-alfa (3). Evidencia também outro postulado de Bion: o uso maciço da identificação projetiva-introjetiva em lugar da repressão (descarga total de idéias, as coisas fogem do pensamento), a presença das características do processo primário, como a substituição da realidade externa pela realidade psíquica e a perda dos limites entre os mundos interior e exterior. Como conseqüência dessa mescla aparece a confusão entre objetos internos e externos pela já mencionada perda da qualidade simbólica dos objetos internos, que agora não mais apenas representam os objetos externos, mas são igualados a eles, equacionados, em conseqüência da destruição dos vínculos simbólicos.
Muito freqüentemente as situações de resistência à análise são devidas a configurações mentais calcadas em aspectos de seres do mundo exterior, as quais chamamos objetos internos. ... Podem esses por vezes serem sentidos como muito fortes, dominadores e perigosos. Esses objetos procuram fazer com que o “status quo” do mundo interno não seja alterado, pois isso levaria a perda de seu poder.
Não cabe ao analista, investigar se o relato do paciente é alucinação ou ilusão; o analista deve sentir o fato como “a verdade do momento”, apenas tomando nota mental do episódio. Mesmo que seja alucinação ou ilusão, nada adiantaria argumentar com o analisando sobre isso, somente poderia resultar no fato do paciente passar a não mais relatar suas alucinações. Com o decorrer da análise, ele perceberá que constitui fenômeno alucinatório e o que faz parte da realidade, discriminando melhor o mundo interno e externo.
Tornam-se também evidentes os sentimentos transferenciais: as qualidades persecutórias e proibitivas desses objetos internos maus que são, pelo uso esquizoparanóide, por vezes atribuídas ao analista.. Mas como esse mecanismo é dinâmico, alternando o mau e o bom, o analista é também sentido como objeto acolhedor, que pode proteger o paciente contra “essas pessoas de sua família”.

No relato do paciente, o analista também deve observar a perda dos limites, como também o aparecimento de alguns aspectos paranóides (medo de ser atacado).
Voltando a Bion (1967,1994)5,3 quando escreve que em análise “devemos eliminar, além da memória e do desejo, paradoxalmente, também a compreensão”, Bion dá a entender que na situação analítica devemos lidar com esses aspectos primitivos e psicóticos que mesmo em pessoas utilizando predominantemente a parte aculturada-neurótica, são comunicados ao analista e necessitam ser compreendidos. Se o analista se mantiver preso ao processo secundário, captará as comunicações de seu analisando unicamente privilegiando esse plano de expressão e perderá a possibilidade de perceber o subjacente, o que existe no nível da fantasia e do sonho, no qual ocorrem os fenômenos primitivos e psicóticos. A lógica comum não tem valor para isso, pois esse nível obedecerá unicamente à biológica de Matte Blanco, mescla do assimétrico com o simétrico (ou processo primário), com predomínio deste último¨.
(1) elementos - beta
(2) elementos - alfa
(3) função alfa
Bion (1977)6 em sua Grade, não diferencia as manifestações às quais deu Freud a designação de processos primário e secundário, englobando-os sob a designação genérica de elementos-alfa. Tem em parte razão, pois se baseia na propriedade pensável desses símbolos, diferenciando-os dos não-pensáveis, simplesmente sensíveis, aos quais chamou elementos-beta. No entanto parece reconhecer uma certa diferença em alguns tipos de elementos-alfa, pois em sua grade coloca-os em fileiras ou camadas distintas, tentando evidenciar a crescente sofisticação do que costumamos designar pensamento. Dispõe de cima para baixo, inicialmente os elementos-alfa puros desligados uns dos outros, que não conseguem ainda uma representação ideativa. A seguir, no estado C, coloca os sonhos, mitos e pensamentos onírico, nos quais predominam, indubitavelmente, os elementos simbólicos tipo processo primário. Nas camadas seguintes aparecerão, em maior proporção, os elementos simbólicos tipo processo secundário. (ver: Faria, J.A.B - Comunicação em nível psicótico, cap 13 da Série XX e XXI - O que permanece e o que se transforma, livro VIII - Os mutantes do terceiro milênio, 1992)8.
Zimerman (1999)17, no capítulo treze do livro Fundamentos Psicanalíticos sob o título Posições: A Posição Narcisista, cita: “Segundo Baranger (1971: in Zimerman,199917), o conceito de “posição”, na obra de M.Klein, alude a uma constelação de fenômenos inter-relacionados, como: o tipo de angústia predominante em uma determinada situação (a paranóide ou a depressiva); os mecanismos defensivos utilizados para dominá-los; as pulsões que estão em jogo; as características dos objetos que estão envolucrados nessa constelação; a qualidade e a intensidade das fantasias inconscientes ativadas; o estado das instâncias psíquicas do ego e do superego; os sentimentos e os pensamentos do sujeito - tudo isso configurando uma totalidade em movimento na qual nenhum fator pode ser considerado de forma independente de todos os demais.
Klein (1975)13 inicialmente descreveu três tipos de posições: a esquizoparanóide, a depressiva e, entre elas, situou a posição maníaca, porém, ao longo de sua obra, desconsiderou a última, e adotou a sua concepção definitiva das duas primeiras posições. As passagens da “posição esquizoparanóide” para a “posição depressiva”, e vice-versa, com as oscilações entre ambas, acompanham-se de modificações e transformações da estrutura e do funcionamento dos objetos internalizados e, de forma correlata, determinam as mesmas modificações no sujeito.
A concepção de “posição” está, portanto, indissociada da noção de “objetos” que se apresentam sob duas maneiras: ora como estruturas endopsíquicas (interação de diversos elementos); ora os objetos internalizados adquirem um tipo de existência própria.
“O termo “posição” não é o mesmo que fase, etapa ou estágio. O conceito “posição” indica uma estrutura definitiva, em evolução constante e permanentemente ativa na organização da personalidade. Portanto, indo além de um estágio (stage), o conceito de posição constitui-se como um estado (state) mental. Ademais, “posição” designa um ponto de vista, uma perspectiva, uma forma de o sujeito visualizar a si mesmo, aos outros e ao mundo que o cerca. Esse vértice de visualização - que varia com as diferentes posições que a pessoa adota diante do que está sendo observado, pensado e sentido - determina uma forma de o sujeito SER e de comportar-se na vida.
Assim, a posição narcisista não é unicamente uma importante etapa no desenvolvimento de todo ser humano; antes, ela comporta-se como uma estrutura, um modelo de relacionamento e de vínculo, que opera ao longo de toda a vida e, por isso, é de especial importância o seu reconhecimento na prática clínica.
Veiga (1992)15, no livro A criação segundo Freud, afirma: “A investigação psicanalítica toma um adulto com um problema psíquico e procura suas origens até a mais remota infância e as circunstâncias culturais lá presentes”. Aborda, no livro, uma tese ousada, mas real e assim se expressa “... nossa criação implanta profundamente em nós o autoritarismo próprio da tirania, traduzida na relação que mantemos com uma instância do nosso aparelho psíquico que Freud chamou de superego (das Uberich em alemão, “o que está acima de mim” em português)”. Revela ainda “estar usando o contraste entre tirania e democracia para pensar nossa criação”. ...“A tirania consiste, ... , na sofisticação da “lei do mais forte” do tempo das cavernas, maquilada com tons amorosos-paternalistas. A expressão não é casual, pois se você reparar bem, esta é a costumeira estrutura de nossas famílias” ... “A democracia é uma novidade na história da cultura humana” ...Nela, as instituições não estavam acima do indivíduo, nem vice-versa. Elas estavam em posições de permutarem enriquecimento mútuo. É um projeto de vida “Utopia” ...Tanto mais utópica quanto mais tirania nos ensinaram na infância ...
Ter o monopólio do saber é manter o poder. ... Freud não só escrevia bem, mas escrevia com honestidade. Dizia que não sabia quando não sabia, acabava por deixar claras suas ambivalências e hesitações (e são inúmeras) tanto quanto suas especulações e presunções. Seu gênio está nisto, em permitir que sua obra seja lida, não como a Bíblia é lida por um religioso fundamentalista, mas como o texto de uma ciência em estado embrionário. Quem quiser tomá-la ao pé da letra vai ter que se haver com inúmeras contradições, vai ser forçado a ficar intrigado, a duvidar, a pensar por si mesmo... Nem nos damos conta de que o que somos é o resultado de nossas circunstâncias, e que elas não são absolutas - ao contrário, mudam com o tempo e o lugar. E podem mudar com a nossa interferência” ...
O livro de Veiga (1992)15, ao ser estudado, prepara-nos para uma revisão da nossa criação, dos nossos antecedentes..., do que nos tornamos. Como analista convém reconhecermos nosso desenvolvimento, nossos sentimentos, defesas, formações reativas e...; para tanto, a necessidade da análise pessoal, o estudo e a supervisão tornam-se indispensáveis, senão, corre-se o risco de repetir a tirania e a dominação... O direito de julgar e não se colocar em análise. Veiga adverte: A psicanálise pode ser um instrumento da tirania, se favorecer a cultura superegóica. Mas pode ser um tremendo instrumento de prevenção da doença psíquica, de intervenção na cultura a favor do respeito mútuo, tirando-o da posição acima do indivíduo e trazendo-a para a mesma cultura. De cultura hierárquica e superegóica para uma relação de dignidades e direitos iguais aos do indivíduo. Enfim, “um instrumento de justiça”.
Greenson (1981)11 faz considerações quanto ao analista: “Conhecendo a sua própria dinâmica psíquica, esta se torna o melhor e mais importante instrumento para compreender outro ser humano, a convicção pessoal da validade dos fatores inconscientes como determinantes dos conflitos para lidar, superar e solucionar os conflitos terão permanecidos inalterados, sem dúvida, o farão desenvolver habilidades, empatia e intuição nas relações terapêuticas”.
É fundamental para o psicanalista reconhecer (Greenson, p.404)11:
-Que as motivações que o levaram para o campo da psicanálise desempenharão um papel importante, na maneira pela qual trabalhará com seus clientes.
-Que os requisitos essenciais aptidão, conhecimentos, caráter e motivação estarão inter-relacionados e ligados com as emoções, impulsos, fantasias, atitudes e valores conscientes e inconscientes.
-Que a habilidade do psicanalista resulta dos processos psicológicos que formam sua personalidade e caráter.
-Que as aptidões do psicanalista estão relacionadas com o uso dos processos pré-conscientes e inconscientes.
-Que a capacidade para alcançar satisfação instintual sem conflito, aumentará a capacidade do seu ego para neutralizar determinadas funções e intensificar as funções autônomas e adaptativas do ego.
-Que seus conhecimentos e inteligência são influenciados pelo grau de solução dos seus conflitos neuróticos.
-Que seus conflitos inconscientes são acessíveis e controláveis para ser usados em seu trabalho.
As aptidões exigidas do psicanalista (Greenson, p.405)11:
Ele apresenta de forma clara, didática e objetiva a importância fundamental da empatia e da intuição na terapia psicanalítica e como capacidades básicas do psicanalista, acrescenta o conhecimento intelectual, teórico e clínico, concluindo que são complementares e validam-se reciprocamente.
A abordagem do autor é extremamente rica e provoca profunda reflexão, obrigando o psicanalista uma revisão de sua análise pessoal, promovendo a continuidade de auto-análise e indicando como imprescindível o desvendar das motivações, dos valores, das crenças, etc. Face às responsabilidades não só quanto ao manejo da técnica, mas também quanto ao embasamento teórico e principalmente na interpretação da neurose, no desenvolvimento da neurose de transferência não identificada, provocando situações não analisáveis, prejudicando o paciente.
A mais importante a sua habilidade para interpretar os conteúdos inconscientes no material, produzido pelo paciente, pontuar elementos chave, relacionar e traduzi-los de forma esclarecedora, compreensível e aceitável para elaboração do paciente.
Para tanto é necessário conhecer profundamente a teoria, usar a empatia e a intuição, oscilando entre participante e observador, ouvindo com atenção flutuante uniforme, a fim de identificar o conflito.
Pode-se afirmar que a empatia exige do psicanalista o mais intrincado conjunto de habilidades sustentado pelo equilíbrio, auto conhecimento e intuição.
Através da empatia, que é um fenômeno essencialmente pré-consciente, compartilhando a qualidade dos sentimentos, com o objetivo de obter compreensão, cujo organismo essencial é a identificação parcial e temporária com o paciente.
Greenson conclui afirmando (item 4.13, p.404/5)11: “os traços exigidos do paciente são qualitativamente semelhantes àqueles exigidos para o psicanalista”.
Assim, a sua obra revela-nos a sua prática ilustrando-a e enriquecendo-a com a indicação de vasta bibliografia e, em como deve lidar o psicanalista na sua pesquisa da vida, dos conflitos humanos, das relações do homem consigo mesmo, com o outro, com o ambiente, a cultura, etc...
Aquele que se interessa pela psicanálise, o analista, descortina diante de si, uma tarefa quase impossível de realizar e, no entanto, possível através do conhecimento de si mesmo, amparado pelo conhecimento teórico de outro, onde busca a interna, a elaboração pessoal, poderá encaminhar-se à estrutura teórica que alicerça o trabalho analítico.
Conhecer-se: este o motivo
Resolver conflitos: esta a razão
Integrar-se: essa a finalidade


Considerações finais:
É fundamental ao analista, avaliar a diferença entre a sua capacidade real e potencial.
A avaliação das próprias qualidades requer um minucioso trabalho de análise e identificação em diferentes níveis:
1) Suas Emoções x Reações
2) Seus Pensamentos x Crenças
3) Seu Comportamento x Julgamento
4) Seu Organismo x Tensões

É essencial que o auto-conhecimento se processe através da auto-observação: da lembrança de si mesmo, da consciência de si, e finalmente, da consciência objetiva.
Esta evolução poderá ter início somente quando partir da compreensão das múltiplas facetas do Ser.
Freud, desvendando a psique humana, realizou a façanha do desvendar-se, enfrentando medo, o preconceito e o saber acadêmico. A observação acurada do pesquisador, que ao mesmo tempo observa o outro e a si mesmo, proporcionou-lhes não a isenção, mas a busca da naturalidade e da empatia, ao reconhecer a impossibilidade do julgamento, visto que sua maior conquista foi reconhecer no outro, os problemas humanos, aos quais ele, também, está e é sujeito.
A formação do analista, ato contínuo, é nosso mais árduo trabalho individual e será tanto mais gratificante, quanto maior for a harmonia e o equilíbrio conquistado na vida pessoal.
Podemos concluir que o conhecimento teórico é facilitador, mas não é suficiente para sanar os conflitos interiores promovendo o equilíbrio somatopsíquico.
É preciso considerar o equilíbrio dinâmico do Ser - a estabilidade no movimento - Toda pessoa que considera a si mesma como mutável, apresenta “pontos de fixação, regressão, recalcamento, indicadores de emoções como o medo e seus derivados, condutores das resistências no modo de ser, alicerçados nos mecanismos de defesa”.
O conhecimento teórico, aliado ao trabalho de uma análise profunda sobre si mesmo, desvendadora das características da personalidade (como máscara) e das características potenciais do Ser (como espírito) poderá levar o indivíduo a percorrer o caminho mais acertado rumo ao auto-conhecimento.
Romper paradigmas, evoluir.



C O N C L U S Ã O
A proposta de Freud para a formação de analistas é bastante objetiva e lógica; principia pela necessidade de análise, nada substitui a experiência do processo analítico, o desvendamento da própria personalidade é o caminho seguro para iniciar a caminhada rumo ao domínio da técnica e o aprofundamento teórico.
Em psicanálise a premissa de que a teoria é diferente da prática, não se confirma, pelo contrário a elaboração teórica representou, sempre, a busca da compreensão face às considerações que a clínica propunha.
Foi assim, que a Psicanálise se tornou ciência, construindo seu arcabouço teórico, salvando vidas, transformando as pessoas.










Referências Bibliográficas


1-ARIETI, S. Interpretation of Schizophrenia. Brunner, R. New York. 1955.

2-BION, Wilfred R. International Journal of Psychoanalysis, Vol.38. 1957, (citação no livro Estudos Psicanalíticos Revisados - Bion. Ed. Imago, 3a. edição, 1994.

3-_____________. Estudos Psicanalíticos Revisados. Rio de
Janeiro: Editora Imago, 1994.

4-__________. Aprendendo com a experiência. Rio de Janeiro; Imago, 1962.

5-_________. Fundamentos Psicanalíticos. Rio de Janeiro:
Editora Imago, 1967.

6-_________. Two papers: the grid and caesura. Rio de Janeiro: Imago, 1977.

7-CARVALHO, Ubiratan. Psicanálise I, II, III e IV. SPOB, 2001.

8-FARIA, J.A.B. - Comunicação em nível psicótico. Cap.13 da série Séculos XX e XXI - o que permanece e o que se transforma do livro VIII - os mutantes do terceiro milênio. 1992-7. p.117-26.

9-FREUD, Sigmund. 1927, O Futuro de Uma Ilusão. OC. Ed. Bras., Vol.XXI 13-71. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

10-______________. 1911, Um caso de demência paranóide. OC. Ed.Bras. Vol.XII 15-108. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

11-GREENSON, R.R. A Técnica e a Prática da Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1981.

12-GRINBERG, Leon. A Supervisão Psicanalítica: teoria e prática. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

13-KLEIN, Melanie. 1946, Psicanálise da Criança. 2a.ed. em português:Ed.Mestre Jou, 1975.

14-MATTE, Blanco. O que permanece e o que transforma. Vol. VIII - Sec. XX e XXV. Citado por Faria, J.A,B,1975.

15-VEIGA, F. D. A criação segundo Freud. Rio de Janeiro: Ed. Relume Dumará, 1992.

16-WINNICOTT, D.W. 1945, A criança e seu mundo. Rio de Janeiro: Zahar Editores - Edições brasileira, 1966.

17-ZIMERMAN, David E. Fundamentos Psicanalíticos: teoria,
técnica e clínica – uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999.

























Índice :: Imprimir :: Enviar a um amigo
Os comentários são de propriedade de quem os enviou. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.
Enviado por Tópico
Pesquise no site
| TOPO |