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| A psicologia e a psiquiatria perdem um de seus maiores expoentes:uma homenagem ao Dr. Mauricio Knobe |
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Enviado em Tue 13 May 2008
por webmaster
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Psicanalista, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas e professor titular do Departamento de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, esse grande mestre, que antes fora catedrático em Psiquiatria e Psicologia Evolutiva na Universidade de Buenos Aires, mas que começou sua vida acadêmica como professor de Anatomia no curso de Medicina em Buenos Aires deixou a todos nós, além de muita saudade, um grande conhecimento acerca do estudo e tratamento de crianças e adolescentes.
Um pouco de sua história
Argentino de nascimento, casou-se com Clara Freud e teve 4 filhos: Hernando (médico), Joseph (psicólogo), Roxana (médica) e Marcelo (físico). Graduou-se em Medicina na Universidade de Buenos Aires e iniciou sua carreira docente na mesma universidade, na cátedra de Anatomia Humana e, como ele mesmo contava, tomou contato com a Psicanálise por um livro de Freud que lhe foi dado de presente pelo seu professor e chefe da cátedra, Dr. Pedro Belou, que lhe fez a seguinte dedicatória: “A quem conhece tão bem o homem por fora, para que o conheça melhor por dentro”.
Assim, no início dos anos cinqüenta, o jovem Mauricio caminhou para a Psiquiatria, concluiu a pós-graduação e se tornou membro da Sociedade Psicanalítica da Argentina. Conheceu a jovenzinha Clara em uma palestra e, como ele dizia, com muito bom humor: “Eu não sabia do parentesco dela com Sigmund Freud; só soube muito depois” (Clara é sobrinha neta do pai da Psicanálise). E Clara, que também tomou gosto pela Psicologia e pela Psicanálise, parece tê-lo adquirido muito mais por influência do namorado do que por sua genética, pois, de estudante de Nutrição, passou a estudante de Psicologia, e foi aluna do Dr. Knobel e de outros nomes importantes e conhecidos entre nós, como a Dra. Maria Luisa Siquer de Ocampo.
Nesta mesma década, já casado e com um filhinho de colo, o Dr. Mauricio Knobel foi indicado por outro psicanalista, o Dr. Angel Garma, para fazer uma segunda residência nos Estados Unidos. A família embarcou, permanecendo naquele país por quatro anos, enquanto ele estudava na Greater Kansas City Mental Foundation, no Missouri. O casal teve o segundo filho e retornou a Buenos Aires em 1960.
Nesse retorno, o professor Knobel reingressou na Universidade de Buenos Aires como docente e se dedicou ao tema da infância e adolescência, ocasião em que fundou o Instituto de Orientação Psicológica à Família, voltando-se aos cuidados da população carente daquele país.
Porém, com a ditadura militar na Argentina, perdeu o cargo no início de 1976, ao receber uma carta do tenente interventor na Universidade de Buenos Aires, que lhe comunicava sua demissão por “atividades subversivas”. Foi nesse mesmo ano que recebeu um convite do reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Dr. Zeferino Vaz, para organizar o Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas e ficar no Brasil por dois anos. Para nossa satisfação, o Dr. Knobel ficou para sempre.
Já trabalhando na Unicamp, o Dr. Knobel reestruturou o departamento, compôs equipes de ensino e de técnicos, enfermarias e buscou a valorização da pesquisa. Falava, com orgulho, que contribuiu e insistiu na inclusão da disciplina Psicologia Médica na graduação de Medicina.
Mais tarde, em 1978, foi convidado pelo reitor da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Prof. José Benedito Barreto Fonseca, para ocupar a coordenação e a cadeira de professor titular junto ao Departamento de Pós-Graduação em Psicologia. Permaneceu nessa instituição a té 1990. Na década de oitenta, como professor n essa pós-graduação, o professor Knobel chegou, certa manhã, para nossa aula, e disse que recebera uma importante correspondência. Era de Raul Afonsin, então presidente da Argentina. Contou-nos sobre esse comunicado, cujo teor era referente a um pedido de desculpas do país por tê-lo demitido e pelos transtornos provocados pela ditadura, e um convite para que retornasse. Creio nunca ter visto o professor tão emocionado. Ficamos todos sem saber o que falar; mas, eis que sempre um aluno desavisado faz a pergunta: - E o senhor voltará, professor?, ao que ele respondeu, com bom humor: - A coordenadora daqui (referia-se à Dra. Marilda Novaes Lipp) terá que me agüentar mais tempo! Fico no Brasil!
Naturalizou-se brasileiro em 1985
Sempre apaixonado pela Psicologia, o Dr. Knobel, nessa mesma década, fundou o Núcleo de Estudos Psicológicos (NEP), na Unicamp, com o intuito primeiro de desenvolver pesquisas no campo psicológico e, depois, para que esse órgão evoluísse para um futuro curso de graduação em Psicologia nessa universidade. Por inúmeras razões, principalmente de política interna, a graduação, lamentavelmente, não foi levada a cabo. Nesses anos de existência do NEP, tive oportunidade de realizar, junto ao professor, algumas produções de livros e artigos que consideramos valiosos. Em 1991, produzimos um livro sobre “Temas de Psicologia Psicanalítica”, outro sobre “Psicossomática” e também realizamos uma extensa pesquisa sobre “Tipos de Psicoterapia que se aplicam no Brasil”, sendo esta decorrente de uma preocupação do professor com a proliferação de alguns modelos psicoterapêuticos, veiculados nos meios de comunicação populares, que não eram condizentes com o que ele tinha como ideal de Psicoterapia.
Em 1992, após aposentadoria compulsória, ainda permaneceu na Unicamp como professor convidado junto ao Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria. E, nesta mesma ocasião, entre 1992 e 1993, também cabe lembrar outra passagem interessante ebem humorada do Dr. Mauricio: quando, em homenagem a ele prestada pelo Departamento de Pó s- -Graduação em Psicologia da Saúde da Universidade Metodista e pela Associação de Psicoterapia Psicanalítica (APP), organizada pelo Dr. José Tolentino Rosa, fizeram-lhe um retrato em óleo sobre tela que lhe foi dado de presente. O doutor agradeceu, emocionou- -se e, passados alguns dias, ele me disse: “Tolentino é uma pessoa muito benevolente” (referia-se ao presente), e eu lhe disse: - Mas, professor, o senhor merece!, ao que ele respondeu: - Acho que mereço, mas não me refiro a isso; só acho que o pintor me fez mais bonito!
Em 1993, recebeu o título de professor emérito da Unicamp, do então reitor Carlos Vogt e, na Argentina, foi-lhe outorgado título de assessor de honra do Comitê de Psico-Oncologia da Associação Médica Argentina.
Entre outros dos vários títulos e funções que exerceu, estão a presidência do Departamento de Psiquiatria da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas, da Sociedade de Medicina Psicossomática, da Comissão Assessora de Saúde Mental do Estado de São Paulo, além de ter sido assessor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e consultor da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). Também figura em sua trajetória a vice-presidência da Associação Mundial de Psiquiatria Dinâmica e da Federação Internacional de Psicoterapia Médica.
No ano de 2002, recebeu o título “International Fellow”, concedido pela tradicional Associação Americana de Psiquiatria, fundada em 1884, dando-lhe reconhecimento por “suas significativas contribuições à pesquisa em Psiquiatria”.
Aos 85 anos, disposto, ainda trabalhava como psicoterapeuta e revisava algumas de suas obras. Faleceu no dia 22 de janeiro de 2008.
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